Resumos das comunicações orais

Memórias do corpo

29 a 31 de outubro de 2019 

Resumos das comunicações orais

 

Perto do corpo selvagem: lábios, lábias e línguas no sertão do Iauaretê

Adner de Almeida Sena

Resumo: A proposta deste trabalho é pensar, brevemente, a respeito do devir-índio da língua no conto “Meu tio o Iauaretê” (1961), de João Guimarães Rosa. Língua, aqui, é compreendida em seu sentido ambivalente: 1- língua como elemento de uma sinédoque, corporeidade que lambe os lábios e degusta presas: corpo; 2- língua que é a escrita de uma fala, lábia que, retórica, devora leituras na teatralização do seu ato. No primeiro sentido, esboçaremos algumas noções em torno das Variações do corpo selvagem, de Eduardo Viveiros de Castro, tais sejam o perspectivismo ameríndio ou o multinaturalismo. No segundo, a leitura de Haroldo de Campos em “A linguagem do Iauaretê” (1992), trabalho em que aponta para uma “tupinização” da língua portuguesa e sua função na metamorfose do Sobrinho em onça. Entretanto, nossa principal referência para pensarmos a lábia retórica será João Adolfo Hansen naquilo em que sua obra “o Ó: ficção da literatura no Grande Sertão: Veredas” (2002) oferece de subsídio, ou fundamento crítico, para avaliarmos as questões do linguajar jaguar do Iauaretê. Esta relação reciprocamente transformadora e inconstante em seus sentidos entre o corpo da linguagem e a linguagem do corpo é o meio por onde pensaremos a “onçologia” na linguagem e no corpo do sertão rosiano. Sertão, aliás, nos lembra Hansen, até então apenas falado em nossa literatura, nunca falante. Trata-se de uma fala que é memória de um apagamento. Mais que um lugar de fala, um lugar que fala. Território que é corpo, portanto afeto. Território que é corpo da língua, lugaroso e errático, portanto político e estético.

Palavras-chave: Meu tio o Iauaretê. Multinaturalismo. Retórica.

Corpos e autoritarismos na literatura de Martín Kohan

Alexandre Fernandez Vaz (UFSC)

Resumo: Se a palavra é o corpo do pensamento, como escreve Theodor W. Adorno, o que significa tratar o corpo na palavra? A literatura ficcional e ensaística de Martín Kohan talvez apresente uma resposta, em múltiplas direções, a essa pergunta. Em suas investigações sobre Eva Perón e a respeito dos relatos de guerra, emerge o corpo, ou os corpos, na arena política, na batalha de narrativas. Em seus romances, o corpo é insuficiência de desempenho, debilidade da velhice, como em Cuentas pendientes; impotência no gozo perverso, como em Dos veces junio, Ciencias morales e Fuera de lugar; potência, ainda que algo clandestina, na sexualidade de Cuerpo a tierra e nas derrotas esportivas de Dos veces junio e de Segundo afuera. Como incômodo nunca dito, mas sempre sentido, está a ditadura civil-militar (a de 1976-1983) como momento forte do autoritarismo na formação da Nação Argentina. Há sempre um corpo que não chega, na estrutura narrativa, às suas últimas consequências, algo que se deixa ver na recusa de um ritmo frenético e espetacular que a literatura pode, não raro, apresentar. Trata-se, no final das contas, do estatuto do corpo na história e na sociedade, ao comparecer ele na escrita, na literatura, mas, mais que isso, ao dar a ela o ritmo de anticlímax.

Palavras-chave: Kohan. Martín. Literatura Argentina. Ditadura. Corpo.

A dança ensina: os saberes do corpo de Amina, no romance Amrik, de Ana Miranda

Aline Veingartner Fagundes (UFSC)

Resumo: Neste trabalho, sob a ótica decolonial, levanto e analiso alguns dos saberes que o corpo e, por consequência, a dança da personagem Amina, no romance Amrik, podem nos ensinar. A ficção da escritora cearense Ana Miranda foi publicada pela primeira vez em 1997. As reflexões presentes na obra acerca do corpo e da dança trazem uma interessante inversão na tradicional hierarquia ocidental, em que a razão é superior a outras formas de entender o mundo. Embora haja circunstâncias que exigem a habilidade de organizar e relacionar informações por meio de uma lógica racional, existem outros saberes disponíveis que não estão ligados necessariamente a operações puramente mentais. Inclusive, em alguns contextos, essas outras capacidades são muito mais plurais e produtivas em termos de conhecimento e memória do que o próprio raciocínio em sua acepção ocidental. É por essa razão que, nesta análise crítica, busco fazer emergir do romance as potências que emanam do corpo – conhecimentos que, nessa ficção, podem ser lidas como respostas ativas a contextos de colonização, exploração, opressão, dominação, silenciamento e violência.

Palavras-chave: Literatura brasileira. Ana Miranda. Corpo. Saberes.

A estrada afetuosa de Todos Nós Adorávamos Caubóis

Antônio Augusto do Canto Lopes Filho (UFSC)

A presente comunicação oral tem como objetivo debater a centralidade dos modelos hegemônicos nas relações afetuosas a partir do romance de Carol Bensimon, Todos Nós Adorávamos Caubóis, de 2013. A escritora apresenta em sua narrativa entre idas e vindas no tempo duas mulheres protagonistas em uma road novel peculiar que satura qualquer diferença que atravesse os corpos das protagonistas e pretenda encaixá-los em definições restritas. Tais personagens vagam como forasteiras na própria terra onde nasceram, tentando compreender suas identidades tanto individuais quanto no relacionamento conflitante entre as mesmas. O estudo possui como norte teórico textos da Teoria Queer que se estabelece como uma categoria epistemológica ao dialogar com os estudos literários e com os mecanismos de exclusão frente às diversas manifestações do afeto. Portanto, textos de Adrienne Rich, Teresa de Lauretis e Judith Butler são suporte para o entendimento dos efeitos das diversas tecnologias sociais que controlam o comportamento de gênero e da heteronormatividade como regulação do desejo nos interiores da sociedade e do texto literário.

Palavras-chave: Heteronormatividade. Teoria Queer. Literatura Contemporânea. Carol Bensimon.

“Troquei de mundo. Troquei de pele”: homossexualidade, amor e imigração em Aquele que é digno de ser amado, de Abdellah Taïa

Bianca Rosina Mattia (UFSC)

Resumo: Publicado originalmente em 2017 na França, o romance epistolar Aquele que é digno de ser amado, do escritor marroquino Abdellah Taïa, foi traduzido para o português e lançado no Brasil em 2018. A narrativa é composta por quatro cartas que perpassam vinte e cinco anos, de 1990 a 2015, sendo duas delas escritas pelo protagonista Ahmed, um imigrante marroquino homossexual de meia idade que vive na França desde os dezessete anos, tendo para lá mudado com o amante francês Emmanuel. As cartas constroem a memória de Ahmed e abarcam as marcas impingidas em seu corpo pela imigração, pela condição de estrangeiro que ele carrega consigo, mas também pela sua homossexualidade. Todas marcas que restringem a liberdade encontrada no Ocidente, onde a homossexualidade de Ahmed não o condenaria à morte. São marcas da colonização, como a imposição de uma língua, de um lugar e de um modo de viver como imigrante, afastado do que pertence ao colonizador e que influenciam sobretudo na experiência amorosa de Ahmed. Abdellah Taïa foi o primeiro escritor árabe a assumir-se homossexual em 2006, ocupando a partir disso um espaço de resistência com seu próprio corpo e com sua literatura. Neste trabalho, busco apresentar algumas reflexões, especialmente sobre o relacionamento amoroso, a partir da experiência de Ahmed e sua busca pela dignidade de ser amado.

Palavras-chave: Amor. Homossexualidade. Imigração.

 

Forjar outros destinos: o relato de si como limiar para a escrita de outras em uma pesquisa artística e teórica sobre compositoras brasileiras 

Camila Durães Zerbinatti (UFSC)

Resumo: Na busca por escutar e audibilizar obras de compositoras brasileiras para violoncelo solo, bem como por visibilizar essas criadoras e suas histórias teórica e criticamente, o “relato de si” colocou-se diante de mim como limiar para a escrita de outras em uma pesquisa artística, teórico-prática e interdisciplinar entre ciências humanas, música/arte e gênero/história da mulheres. Limiar e espaço de possibilidade de deslocamentos e atravessamentos de fronteiras diante do dilema: como forjar e encontrar outros destinos que não os das inaudibilizações e invisibilizações, silenciamentos e apagamentos, exclusões e opressões… os destinos das diferentes mortes e passagens ao ato? …como ressignificar? …como voltar a “morar em mim” para então, poder hospedar no corpo que toca, reflete e escreve as criações de outras criadoras? Vida e criação começam a se descortinar no espelho das águas a partir de referenciais como o relato de si, a escrita de si, a autoficção, a artetnografia e a pesquisa encarnada e incorporada (MANFRINI; CIMA, 2016), (MAGALHÃES, 2017), (MEEHAN, 2016), (MEIRA, 2017), (BORGES, 2013), (ANZALDÚA, 2000, 2005, 2009), (BUTLER, 2015), (LYRA, 2014, 2015, 2017), (FIGUEIREDO, 2010, 2013). Quero vestir minha história. Quero contar outra história. Quero contar outras histórias que não as de sempre, que são ou inexistências, silêncio, vazio, esquecimento, não-escuta, apagamento, não-reconhecimento, ou, coisa tão ruim quanto, de alguma forma – violências explícitas, morte e destruição de diversos tipos. Quero contar histórias de vida. Quero querer viver. Histórias de vida real, histórias reais. É assim que começo a tentativa de cartografar meus percursos e travessias nessa pesquisa, com seu tema. Preciso dizer que essa pesquisa nasce de um desejo de vida, provavelmente o primeiro desejo criativo de vida, o primeiro sonho, o primeiro lampejo, elã, repente, que tive em anos. […] Eu me lembro bem como foi. Uma coisa dessas a gente não esquece, ou se esquece, esquece com muita dificuldade.

Palavras-chave: Artetnografias em música. Compositoras brasileiras. Relato de si. Autoficção. Pesquisa encarnada e incorporada.

Ludwig e o carrasco: reflexões sobre tortura em Bolero, de Victor Giudice

Carolina Veloso Costa (UFSC)

Resumo: O romance Bolero narra a história de um sujeito perdido. Perdido no tempo e no espaço. Perdido em sua própria existência. As lembranças dos sete anos de espera na maternidade resumiram-se em uma cadeira e nos cafés oferecidos pela enfermeira de pernas ponteiro. Ao sair da maternidade, o personagem depara-se com a surpresa de não viver mais em uma república, mas em uma monarquia. O esquecimento de sua própria história naquela Cidade levou-lhe a tornar-se, por acaso, um preso político. Mais uma vez perdeu a noção do tempo e do espaço, mas agora, ao invés da sala de espera, tem-se uma cela, os monólogos do companheiro Número Um e encontros com o “amigo de capuz negro”. Foram duas prisões. Ambas deixaram marcas que ultrapassam os limites do corpo e do tempo. Nessa perspectiva que me proponho a pensar na importância do relato de tortura e de suas marcas para o processo histórico e político brasileiro. O personagem-narrador de Bolero tem sua história colocada em dúvida em inúmeros momentos, a espera de sete anos na maternidade não é possível provar, mas a tortura na prisão, sim, pois essa deixou marcas em seu corpo. No entanto, o que fazer quando as marcas, sua única prova, desaparecem? Gostaria de propor uma reflexão sobre o embate entre a vontade do torturado de esquecer e a necessidade do cidadão de denunciar e provar a tortura.

Palavras-chave: Literatura brasileira. Ditadura militar. Tortura. Romance pós-64.

Quando o corpo que se insurge enquanto memória: análise do processo artístico-pedagógico da peça Estendemos Nossas Memórias ao Sol

Caroline Vetori de Souza (UDESC)

Resumo: Que vozes ainda não sabemos escutar? A partir desse questionamento, busquei investigar a construção de uma dramaturgia que, denomino, dramaturgia da escuta, inspirada na compreensão da necessidade de abrirmos espaços de escuta, alinhada ao entendimento dos lugares de fala. Analisarei, então, o processo artístico-pedagógico de teatro desenvolvido com mulheres encarceradas do Presídio Feminino de Florianópolis, Santa Catarina, do qual nasceu a peça Estendemos Nossas Memórias ao Sol. O espetáculo é fruto de um trabalho colaborativo, no qual, através de diferentes estímulos (como a escrita e a oralidade, especificamente através da contação de histórias), todas as alunas-atrizes criaram, focalizando suas histórias de vida, mas lançando mão de metáforas para a expansão de significados e leituras sobre as mesmas.

Palavras-chave: Teatro. Memória. Pedagogia.

Um poema que queima. La metáfora de Idea Vilariño

Denise Rogenski Raizel (UFSC)

Resumo: Poemas que suscitam adesão. Assim, a poeta uruguaia Idea Vilariño, classificou seus poemas mais íntimos, publicados no seu livro Poemas de Amor. Uma aparente contradição que tem como exemplo o poema La metáfora, no qual se lê a descrição de um ato de intimidade. Quemame dije / y ordené quemame / y llevo llevaré / – y es para siempre – / esa marca / tu marca / esa metáfora. Sobre esse poema, Ana Inés Larre Borges, no artigo El arte de esperar: Correspondencia Idea Vilariño-Juan Carlos Onetti relata: “Fechado en Madrid 1989, el poema habla de una quemadura en su piel hecha por Onetti. […] En su visita, Idea cumple un rito de pasión y consigue con su cicatriz otro signo para su recuerdo. El poema la ratifica y prolonga.” O poema segue desde o episódio concreto, o ato da queimadura em Madrid, passa pela escritura para culminar na publicação no livro Poemas de Amor. Neste trabalho pretendo analisar este poema a partir da proposição final da poeta, que entendo como uma provocação. Uma metáfora não é sempre uma marca no corpo? Para isso, parto do texto Envío de Derrida, da fratura que divide todo remeter em uma multiplicidade de remissões e suas marcas.
E para analisar as estratégias textuais, proponho ler o endereçamento no poema de Idea como movimento, como dois corpos dançantes, que podem ser observados a partir de um conjunto de procedimentos: a presença da segunda pessoa, o ritmo e os espaços de vazio. Elementos que formam um poema endereçado que podem alcançar uma coletividade de queimados a partir da dessemelhança das marcas que possuem. Para usar as palavras de Onetti (citadas no mesmo artigo) em resposta ao poema de Idea: Tu futuro es sencillo / te quemarán en el mundo otros cigarrillos.

Palavras-chave: Poesia. Idea. Envio. Endereçamento.

Notas sobre o claustro nos lugares da memória no teatro de Hilda Hilst

Eduavison Pacheco Cardoso (UFSC)

Resumo: Este trabalho objetiva fazer um estudo sobre os lugares – e suas relações com a memória – em duas peças de teatro da escritora, poeta e dramaturga jauense Hilda Hilst (1930-2004). A análise de O rato no muro (1967) – ambientado em uma capela – e de As aves da noite (1968) – que narra acontecimentos na “cela da fome” em Auschwitz – tem a finalidade de evidenciar como determinados locais de pedra, nesses dois casos o claustro, se relacionam com o lugar do corpo humano, que sempre busca a libertação. Ainda dentro dessa perspectiva, busca-se estabelecer uma relação entre o local de domicílio da autora, a Casa do Sol, e a produção de suas peças de teatro durante o período da ditadura militar, além de mostrar que a residência é um local de partilha. O aporte teórico, cuja finalidade é a de auxiliar a concretizar esses objetivos, se constitui por textos de Aleida Assmann (a respeito do local traumático), Astrid Erll (sobre a transculturalidade mnemônica) e pela noção de partilha (do lugar) sensível, de Jacques Rancière.

Palavras-chave: Hilda Hilst. Claustro. Lugares. Memória. Teatro.

A história “dove forse non c’è”

Elena Santi (UFSC)

Resumo: A coletânea Barlumi di storia (2002) do poeta italiano Giovanni Raboni (1932-2004) aparece intimamente ligada, desde o título, com a história privada e coletiva. Porém, é uma história que não se apresenta como algo imediatamente legível, tudo é visto em filigrana, por lampejos, em uma perspectiva benjaminiana. Os espaços são interrogados e, na contraluz da existência, aparecem as farpas dos fatos históricos que penetram na carne do poema e do corpo que percorre o espaço, transfigurados por meio da palavra poética. O tempo dos eventos históricos não é visto sob uma perspectiva linear; seus fragmentos se misturam com memórias, vivências e lembranças, ecoando no branco da página, no silêncio, no não dito, no esquecido. É o caso do poema “Ogni tanto succede”, em que o poeta atravessa a piazza Fontana, tristemente famosa por ter sido o palco do atentado ao banco da agricultura, evento que inaugura a época do terrorismo na Itália. É por meio do corpo que caminha na praça, que interroga com seu movimento o espaço de sua geometria falimentar que o poeta pode falar sobre o acontecimento histórico, que ecoa em todo o poema, sem ser propriamente nomeado. Dito isso, o objetivo desta comunicação é pensar a relação entre palavra poética e história e o corpo na coletânea raboniana, partindo dos conceitos de contemporâneo de Giorgio Agamben e as Teses sobre o conceito de história de Benjamin, pondo em diálogo o elemento histórico com a memória, o esquecimento e o silêncio.

Palavras-chave: História. Memória. Esquecimento. Corpo.

“- Vocês estão sozinhas?” Uma análise do conto “Duas mulheres sozinhas”, de Diedra Roiz

Eliane Santos da Silva (UFSC)

Resumo: As narrativas onde apareciam personagens lésbicas na literatura brasileira, até recentemente, eram quase que exclusivamente de autoria de escritores e em sua maioria traziam as marcações e os referenciais que reproduziam os elementos do heterocentrismo e androcentrismo fazendo com que a manutenção de uma imagem estereotipada da lésbica se perpetuasse no ambiente social. Corpos que carregam as marcas produzidas pelo silenciamento de vozes e de suas subjetividades. Propõe-se uma análise do conto “Duas mulheres sozinhas”, de Diedra Roiz, com objetivo de localizar no decorrer da narrativa as ocorrências evidenciando os conceitos de Performatividade de Judith Butler (2013), Tecnologia de gênero de Teresa de Lauretis (1994), Heteronormatividade compulsória de Adrienne Rich (2010) e Epistemologia do armário de Sedgwick (2007) e propiciar a reflexão e o diálogo acerca destas ocorrências e de como influenciam na experiência individual de cada personagem do conto fazendo um paralelo do desenrolar das cenas com as teorias apresentadas como corpus teórico, bem como apontar as possibilidades de construção de novas narrativas.

Palavras-chave: Lésbicas. Heterocentrismo. Heteronormatividade.

Um corpo para a tragédia, um corpo para a comédia

Elisana De Carli (UFSC)

Resumo: O gênero dramático, prioritariamente, se efetiva pela presença do corpo do ator a manifestar o corpo do personagem, da potência virtual da dramaturgia para a materialização na encenação, assumindo o corpo um papel definidor. Tal conformação se expande para a tragédia e a comédia, nas quais a apresentação do corpo, as formas de nomeá-lo, atribuir significados e usos diferem, delineando características específicas. Em ambos, a presença da violência física acontece, porém o valor atribuído gera um resultado diverso, fomentando o rir ou o chorar. Assim, o objetivo desta comunicação é identificar, de forma exploratória, a referencialidade dada ao corpo, suas manifestações, suas memórias, sua apresentação, tendo no acervo da dramaturgia do teatro antigo, especificamente grego, o escopo para o gênero trágico e para o gênero cômico. Marcadamente, o corpo cômico é um corpo que se molda, se adapta, é um corpo flexível, ao passo que o corpo trágico é rígido, inflexível. Esse sentido conotativo é também denotativo, um corpo cultural e um corpo biológico (EAGLETON, 2013), refletindo e potencializando a estrutura e o conteúdo de cada gênero.

Palavras-chave: Corpo. Comédia. Tragédia. Dramaturgia. Teatro.

O corpo como espaço das desigualdades e explorações da sociedade de classes em Suor, de Jorge Amado

Elton da Silva Rodrigues (UFSC)

Resumo: Suor é o terceiro romance de Jorge Amado e foi originalmente publicado em 1932. Em diálogo com de O cortiço (1890), de Aluísio de Azevedo, o autor narra a vida miserável, promíscua e oprimida de uma gente amontoada em um velho sobrado no Pelourinho: o número 68. As personagens, que por ora ascendem da condição de coadjuvante à de protagonista, são trabalhadores marginalizados e excluídos socialmente, muitas vezes sem qualquer perspectiva de vida. Na narrativa, Jorge Amado apresenta essas personagens e, de modo crescente, torna esses seres individuais que, em comum, possuem a vida de oprimido e o mesmo endereço, uma multidão, uma massa humana que luta pelo grito de liberdade. Antes, contudo, o autor demonstra de que modo o sistema capitalista alimenta-se das pessoas por meio das imagens do corpo: exaurindo suas substâncias e arrancado suas partes. Estão presentes no romance os corpos de trabalhadores que têm membros amputados, tornam-se cegos, aleijados e perdem a vida aos poucos ou de súbito por conta do trabalho. Assim, a presente comunicação tem como objetivo analisar como ocorre a inscrição das marcas de desigualdades e explorações da sociedade de classes no corpo das personagens e, a partir dessa inscrição, observar a crítica de Jorge Amado à sociedade capitalista e aos meios desumanos e irrefreáveis de produção.

Palavras-chave: Corpo. Desigualdade social. Literatura proletária. Jorge Amado.

Os corpos da guerra: um olhar para a produção narrativa de Giorgio Caproni

Fabiana Vasconcellos Assini (UFSC)

Resumo: O poeta italiano Giorgio Caproni (1912-1990) fez seu trajeto na literatura italiana por meio de sua poesia. Porém, nos anos de um silêncio poético, Caproni escreveu – e publicou – contos narrativos. Escritos especialmente no período do pós-guerra (1945-1950), sua produção evidencia muitos elementos e paisagens bélicas. Sendo um período particularmente violento, que deixou profundas marcas na sociedade e literatura italiana, Caproni não saiu ileso da experiência como “partigiano”. O poeta tem “a guerra penetrada nos ossos” (CAPRONI, 2009, p. 117) para recuperar um de seus versos, e a partir desse evento, percebido por ele como uma violência à própria experiência do homem, busca-se pensar em como os corpos se apresentam e são descritos num espaço menos demarcado do que a poesia. Integrando-se a proposta do Seminário, pretende-se estabelecer um diálogo entre os contos e as noções de memória e de corpo, dois elementos essenciais para se pensar a escrita caproniana desse período. A presente análise contribui para pensar a produção de Caproni – poética e narrativa – como um arquivo onde o passado continua a ecoar no presente.

Palavras-chave: Giorgio Caproni. Corpo. Memória. Narrativa italiana.

 

Subjetividades binárias num corpo sem memória

Gabriela Bregolin Grillo (UFSC) e Igor Bitencourt Scarabelot (UDESC)

Resumo: O corpo circunscrito ao ciberespaço e categorizado pela lógica algorítmica delimita o objeto de reflexão do presente ensaio, que consiste na significação de uma subjetividade totalizante (DELEUZE; GUATTARI, 1996) marcada pela desconfiguração da memória do corpo. Diante de uma simbiose com o meio virtual pela cientifização da psique, o algoritmo circunscreve o sujeito numa estrutura por ele encadeada, logo, subordina a subjetividade a uma efabulação linear que marca a característica paranoica do sujeito algorítmico (FALTAY, 2019). Nessa sociedade marcada por uma aparente nova formulação subjetiva, que se molda pela ressignificação do sujeito no meio virtual, operando sob uma ótica sistêmica da paranoia, pensamos a análise das relações entre a produção de subjetividades (GUATTARI; ROLNIK, 1996) e o meio virtualizado. O processo algorítmico limita a subjetividade a um padrão binário de encadeamento lógico-racional, uma vez que o próprio algoritmo é incapaz de produzir simulacros do real desvinculados desse binarismo. Dada a ausência da possibilidade de complexidade, o algoritmo acaba por reduzir a historicidade do sujeito a sua lógica binária, produzindo, na relação discursiva do meio virtual, um corpo sublimado ao universal generalizante (GLISSANT, 2011).

Palavras-chave: Subjetividade. Corpo. Universal. Algoritmo. Paranoia.

Rastros da guerra: as formações de memória em Terra Sonâmbula, de Mia Couto

Gisele Krama (UFSC)

Resumo: A obra Terra Sonâmbula (1992) de Mia Couto trata de uma jornada entre o garoto Muidinga e o velho Tuahir quando fogem de um campo de refugiados durante a guerra civil moçambicana e seguem rumo ao mar. A narrativa trata de questões como os processos de recordação (e de apagamentos) e o silenciamento de vítimas não apenas por este conflito, mas por uma longa trajetória de violência social sobre corpos e imaginários, que inicia com o colonialismo português. Assim, a obra suscita questões sobre os processos de formação de memória, sobre a importância dos testemunhos para lidar com traumas contemporâneos e de outrora, assim com o papel da palavra (escrita e falada) para narrar um país fragmentado pela perda, pela destruição. Para analisar estes processos, buscam-se referências nos conceitos de Aleida Assmann, que tem um trabalho dedicado a entender os espaços de recordação, e de Astrid Erll, especialmente com sua construção de “travelling memory” ou que podemos chamar de memória viajante.

Palavras-chave: Memória. Narrativa. Testemunho. Restituição.

Encenar a si: retratos do teatro de Tadeusz Kantor

Igor Gomes Farias (UFSC)

Resumo: Este trabalho propõe um diálogo com o trabalho do polonês Tadeusz Kantor (1915-1990), refletindo sobre como a memória estrutura imageticamente a dramaturgia do seu teatro. Ao lidar com imagens fortes e altamente simbólicas, o encenador reaviva suas lembranças diante do público, estruturando assim uma espécie de escrita visual sobre si na cena. Kantor mistura temas da guerra, da infância e de uma série de temáticas que fazem parte de suas lembranças, traduzindo-as através de experimentações que também exploram a relação intrigante entre o corpo de seus atores e objetos inanimados, tais como bonecos de cera e maquinarias criadas por ele (que eram acopladas a estes corpos). Além disto, o próprio encenador reivindica para si o espaço da cena, dividindo o palco com todos os demais elementos que fazem de sua obra um espaço essencialmente mnemônico, arquivo testemunhal de sua época. Assim, o artista traduz perfeitamente em suas cenas as principais temáticas de seu tempo e de sua vida, consagrando-se como um dos maiores nomes do teatro no século XX.

Palavras-chave: Memória. Tadeusz Kantor. Teatro. Imagem.

A representação dos totalitarismos industriais pelo viés do corpo e seus ferimentos no 1984 de George Orwell

José Claudio Matos (UFSC)

Resumo: O objetivo do estudo é analisar a narrativa sobre o corpo feita por Orwell no romance 1984 como uma forma de representar o controle social em regimes totalitários. A pesquisa é de caráter bibliográfico e segue o horizonte metodológico da Teoria Crítica, segundo Walter Benjamin. Este expediente de análise procura delinear o perfil de uma sociedade através das produções literárias que aludem a aspectos contraditórios ou extremos da experiência humana. Em 1984, a personagem Winston Smith manifesta uma série de sintomas físicos que tomam parte na estratégia de Orwell para caracterizar seu cenário distópico do regime político do Ingsoc. Através do controle, da punição e de sistemas extremamente austeros de condicionamento, o regime totalitário narrado crava suas mensagens no corpo de Winston Smith. A evolução de seus ferimentos e de seu estado de saúde, marcam um processo de alienação e de dominação. Os resultados desta leitura, realizada conforme uma estratégia semelhante à usada por Benjamin para discutir a modernidade industrial, envolvem o reconhecimento da fundamentação conceitual e factual acionada por Orwell para dar credibilidade a sua narrativa distópica ao mesmo tempo em que evoca reflexões sobre os efeitos de formas sutis e ostensivas de controle social no auge da sociedade tecnológica.

Palavras-chave: Orwell. Corpo. Teoria Crítica. Distopia. Controle social.

Entre o canto e o encontro: poemas de nascimento em Paula Tavares e Dina Salústio

Juliana Goldfarb de Oliveira (UFSC)

Resumo: O grito, o corpo aberto, o silêncio, a dor que transcende. Essas são algumas das imagens que perpassam os poemas “Canto de nascimento” e “Aquela mulher que rasga a noite”, escritos pela angolana Paula Tavares (1999) e “Éramos tu e eu”, da cabo-verdiana Dina Salústio (1991), que serão analisados nesse trabalho. O parto convencionalmente encontrado na cultura patriarcal tem o sofrimento decorrente da culpa feminina como símbolo recorrente. No entanto, nos poemas escolhidos como corpus, o nascimento não se restringe apenas a dor, mas revelam também a potência do corpo feminino, sexualizado e ritualizado. Nessa perspectiva, as autoras introduzem à temática do parto uma ótica descolonizada, em que o corpo performa um portal, que possibilita o encontro, se abre ao afeto, descobre sua força e resulta na libertação – tanto fisiológica, daquele outro corpo que fazia parte de si, quanto social, sendo nos dois poemas o momento em que a voz, ou o grito, se fazem presentes intensamente. Para pensar tais questões, serão essenciais as considerações de Andrea O’Rilley (2016) acerca do feminismo matricêntrico, e de Érica Antunes Pereira (2010) sobre a poesia de autoria feminina em países africanos de expressão portuguesa.

Palavras-chave: Poesia africana de língua portuguesa. Autoria feminina. Maternidade. Paula Tavares. Dina Salústio.

Corpos inauditos: uma análise das escritas de si na visibilidade de experiências trans

Juno Nedel Mendes de Aguiar (UFSC)

Resumo: Seria inapropriado afirmar que pessoas transgêneras e gênero-diversas foram completamente apagadas da história. Por outro lado, é inegável que as narrativas sobre as vidas de pessoas trans foram e ainda são predominantemente elaboradas por pessoas cisgêneras, tendo em vista os processos históricos de injustiça social, econômica, política e epistêmica que acometeram e acometem as populações trans no Brasil. Porém, com o aumento de visibilidade da comunidade trans no debate público a partir dos anos 1990 e a conquista (ainda que frágil) de alguns direitos sociais no século XXI, pessoas trans e gênero-diversas têm encontrado estratégias para repensar corpos, memórias e histórias a partir de suas próprias perspectivas. Isso é feito principalmente através das escritas de si, como diários, rimas orais e autobiografias. É por meio das escritas de si que os indivíduos conferem significados especiais ao mundo que os rodeia, materializando a sua história e a história dos grupos aos quais pertencem. Neste trabalho, gostaria de discutir o papel das escritas (transgêneras) de si na produção de cartografias de experiências trans, evidenciando as relações de poder que atravessam os corpos e a memória social.

Palavras-chave: Transgeneridade. Escritas de si. Corporalidades. Memória. História.

Um Corpo que se Conta

Letícia Borges Nedel (UFSC) e Gabriela Colato Martini (UFSC)

Resumo: Tatuar-se é construir um corpo que conta uma história; um ato de enunciação de si. Diferente das cicatrizes e das linhas de expressão, a tatuagem é uma marca que se inflige – de forma dolorosa – ao corpo intencionalmente, articulando simbologias e concepções estéticas, dando sentido às ideias e eventos que são, ou foram, presentes na vida do tatuado. Para os que tem suas peles marcadas por tatuagens, percorrê-las é, portanto, uma ação dotada de sentido rememorativo. O sujeito registra no corpo tempos e circunstâncias às quais as inscrições remetem de forma análoga ao modo como os suportes documentais remetem às ações que lhes deram origem. Tal como os documentos de arquivo, as tatuagens não falam; suscitam narrativas. Essas marcas, à medida que se contam, também ocultam, sujeitas que estão à lógica implacável da seletividade e do recalque. Mas o que faz com que cicatrizes de tinta tornem-se indícios de um tempo vivido, experimentado subjetivamente e passível de ser narrado? A capacidade destas inscrições de objetivar – pela via escrita ou desenho sobre a pele – um tempo subjetivo faz do corpo um arquivo móvel, onde se inscreve a paixão pela coleção e o desejo de registro. A dimensão autobiográfica dessas inscrições, com suas composições narrativas, recursos poéticos e cronologias próprias, estabelece uma espécie de diário visual que, rompendo com o sigilo e a domesticidade dos diários, circula pela cidade e se oferece ao olhar. A partir das reflexões de Paul Ricoeur, sobre a identidade ipse e o primado da mediação reflexiva sobre a imediatez do sujeito, e de Bernard Lahire, sobre a reflexividade como um modo de constituir repertórios de disposições individuais, a comunicação interroga o sentido memorial das inscrições corporais realizadas entre tatuadores. A tatuagem contemporânea é abordada no trabalho como um ritual de auto-reflexividade cujas marcas comunicam tempos díspares, que ao serem narrados no presente da interação, servem como uma forma de autenticação do corpo.

Palavras-chave: Arquivo. Memória. Rituais. Reflexividade.

“Meu corpo, o tubo de ensaio”: memória, corpo e emoções nos egodocumentos de Sylvia Plath

Letícia Portella Milan (UFSC)

Resumo: Sylvia Plath (1932 – 1963) foi uma poeta norte-americana que teve seu reconhecimento literário após seu suicídio. Em decorrência disso, a produção acadêmica sobre a autora foi fundamentalmente guiada pela busca por indícios psicológicos em sua obra que apontassem para a decisão de encerrar a própria vida. Este evento foi entendido como um desvio psiquiátrico que não somente desembocou em sua morte, mas também estabeleceu a genialidade de sua literatura – fruto, então, de uma mente “patologicamente depressiva”. Além de sua poética, o material pessoal da poeta também serviu como indício para tais questionamentos, sendo o caso, por exemplo, de suas distintas “narrativa de si”, como cartas e diários. Nesse sentido, a presente comunicação se dedica a historicizar a memória, o corpo e narrativas emocionais na escrita de si da poeta. A partir dos postulados da História das Emoções e História das Mulheres, pretendo analisar como as memórias de Sylvia Plath, uma mulher norte-americana no período Pós-Guerra, externalizam sua relação com seu corpo, e como a poeta pensa a maternidade – considerada por ela uma “Grande Experiência”, e a inadequação de seu corpo, diagnosticado como infértil, significava uma “imensa e devastadora morte”.

Palavras-chave: Egodocumentos. Emoções. Sylvia Plath.

O Universo de Brennand: a imagem de beleza de corpo – a cerâmica e a escrita

Ligia Maria Bremer (UFSC)

Resumo: Francisco Brennand (1927 –), artista pernambucano, em meados de 1970, idealizou e iniciou a construção, na região da Várzea em Recife, da sua “Oficina/Museu”. Nesse lugar, delimitado pelas ruínas de um antigo Engenho açúcar, datado do final do Século XVIII, imagem e realidade se misturam e fundam uma nova realidade povoada de personagens da literatura, da mitologia e da história, que ganham forma como esculturas ou em murais reproduzindo textos literários. Além de artista plástico, Brennand também se aventurou na escrita, publicou alguns livros e ensaios, contudo o mais recente, em 2016, é a publicação dos seus Diários (quatro volumes). Partindo desses dois universos ao qual o artista pertence, o objetivo desse trabalho é pensar a imagem de beleza de corpo refletida nos diferentes suportes. Para o estudo, partirei da análise de uma seleção de suas peças cerâmicas (descritas por alguns visitantes da Oficina como representação do Horror) e da escrita de partes de seu Diário (com descrições e relatos de imagens e pessoas). Observa-se que as imagens montadas pelo artista em um primeiro momento, aparentam convergência, no entanto, representam o pensar total do homem: refletindo todo o seu Universo.

Palavras-chave: Beleza. Corpo. Arte. Cerâmica. Escrita.

Sentir, sentidos: a figura do corpo em Patrizia Cavalli

Luiza Kaviski Faccio (UFSC)

Resumo: Sendo a relação com o outro, e a presença do corpo muito marcante nos poemas de Patrizia Cavalli (Todi, 1949), importante poeta contemporânea italiana, a presente comunicação propõe uma reflexão acerca da relação entre corpo e sentido(s), sensibilidade, nas obras poéticas de Cavalli. Perpassando por alguns poemas variados de suas publicações, o foco será dois de seus livros: “Pigre divinità e pigra sorte” e a coletânea “Poesie”. A proposta central é pensar a relação que a poeta tem com o corpo e como ele se relaciona com o mundo, através do sentir nas suas diferentes formas e por diferentes “estímulos”, sendo eles dois principais: 1. O corpo através da sexualidade, e o corpo sexual/sensual, o desejo pelo corpo ou no corpo (principalmente feminino) e a relação entre o “eu” e o outro; 2. O corpo enfermo, física e mentalmente (a relação entre os versos de Cavalli e a depressão e a doença das quais sofreram a poeta);

Palavras-chave: Poesia. Patrizia Cavalli. Sentidos.

Afetos, corpo social e memória: relações entre espaços, comunidades e identidades em O Filho de Mil Homens, de Valter Hugo Mãe

Marcus Vinícius de Oliveira Mitre (UFSC)

Resumo: No século XX, vários autores, especialmente na sociologia, passaram a compreender o espaço não apenas como uma realidade apriorística, que exerce uma força própria sobre os indivíduos, mas como construção social que atua tanto como cerceadora como promotora da ação. Nessa perspectiva, portanto, o espaço deixa de ser compreendido como estático e prevalece e a noção de que ele é passível de ser reinterpretado e modificado tanto simbólica quanto materialmente. Integrando essa perspectiva sociológica com os estudos literários, propõe-se, neste trabalho, partir de algumas noções e conceitos apresentados por Martina Löw (2013) e Astrid Erll (2011) para empreender uma análise dos aspectos sociais apresentados e problematizados no romance O Filho de Mil Homens (2011), do escritor português contemporâneo Valter Hugo Mãe. Em linhas gerais, é possível perceber, analisando a construção do espaço ficcional no romance supracitado, uma mudança gradual na narrativa, na qual o espaço pouco a pouco modifica as personagens e também vai sendo modificado por uma reelaboração da memória comum. Nesse sentido, pode-se dizer que há também uma modificação da memória funcional das personagens, o que sugere a construção de uma ideia de comunidade também como compartilhamento de espaços de recordação, nos termos de Aleida Assman (2011). Na perspectiva aventada por Assmann, memória torna-se sinônimo de identidade, sugerindo uma relação estreita entre espaço, memória, corpo social e afetos.

Palavras-chave: Valter Hugo Mãe. Espaços de recordação. Memória. Afetos. Comunidade.

O corpo feminino em envelhecimento em/na cena

Maria Cristina Fabi (UDESC)

Resumo: Através desse projeto tenho por objetivo refletir e estudar as questões do envelhecimento do corpo feminino no campo das artes performativas no cenário pós-moderno. Meu corpo é o principal objeto de estudo. Nesse lugar de fala que é ao mesmo tempo testemunho e problematização. Abordarei nessa pesquisa as questões do envelhecimento da mulher, e tratarei o meu corpo como um testemunho contra hegemonias da beleza e juventude eternas, em contraposição à cultura da eternidade e a negação da morte. A estrutura de apoio conceitual para essa pesquisa, está alinhada aos conceitos de corpo tratados na filosofia por Nietzsche, Deleuze & Guattari, José Gil, Jean Luc-Nancy. Tendo em vista os avanços tecnológicos e científicos que se esforçam em manipular o controle sobre a vida e a morte, tratando do envelhecimento natural do ser Humano como algo a ser superado e relativizado. Encarada como algo indesejável, temida, excluída essa categoria de sujeitos são deixados à margem da sociedade. Essa visão é reforçada pelas pautas do Capitalismo nas sociedades forjadas pelo machismo. Proponho a reflexão sobre as memórias que o corpo feminino em envelhecimento carrega, suas fragilidades, combinações entrecruzadas de forças de potência e desejo de resistência.

Palavras-chave: Corporalidade feminina. Envelhescência. Pós-modernidade.

Entre a cognição e a ação: anestesia e brutalidade do olhar em Jogos Vorazes

Monique Heloísa de Souza (UFSC)

Resumo: Esta comunicação se propõe a debater as corporeidades na trilogia Jogos Vorazes, da autora norte-americana Suzanne Collins. No enredo do primeiro livro, 24 adolescentes são forçadas/forçados pelo governo totalitário de Panem a participar de um reality show, em que devem lutar até a morte para sobreviver e, assim, vencer a competição. Com base na ideia de Susan Buck-Morss, da tela como prótese de percepção, tanto os corpos de quem assiste quanto os assistidos são anestesiados para a violência que permeia toda a situação. Desde o início, os corpos das/dos adolescentes (tributos) são modificados para as entrevistas, limpos, escovados, cicatrizes de trabalho forçado são apagadas, de modo a se transformarem em astros/estrelas. Tornam-se, assim, objetos de desejo do público, artigos de consumo cada vez mais feminizados. Na arena, os tributos sofrem e perpetuam carnificina, dispostos a agradar uma audiência dessensibilizada para a dor, que só consegue assistir àqueles atos brutais pela mediação da tela. As espectadoras/os espectadores se expõem ao choque, têm seus sentidos estimulados, ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, entorpecem-se pelo consumo. Os eventos são cognitivamente apreendidos, mas a distância que a tela interpõe corta qualquer possibilidade de ação. Um olhar passivo, e ainda falocêntrico, que sujeita os corpos vulneráveis dos tributos ao seu prazer.

Palavras-chave: Reality Show. Violência. Anestesia. Jogos Vorazes.

O corpo feminino na obra de Luiza Romão: transgressão e ruptura

Nincia Cecilia Ribas Borges Teixeira (UNICENTRO)

Resumo: A pesquisa analisa a representação do corpo feminino, na obra da artista Luiza Romão, reconhecendo a arte como veículo de significação e comunicação visual. O corpo é uma forma de identificação do feminino e do masculino, mas é especialmente tido como um estigma da representação do poder masculino. Em toda a história fica evidente a divisão entre o público, no que se refere aos papéis masculinos, e o privado, quanto aos papéis femininos. É para o âmbito da representação artística que voltaremos nosso olhar, ou seja, para a análise de como se dá o olhar estético do autor na captação da concepção dominante na poética do corpo feminino. Adotamos o método hermenêutico de interpretação; a hermenêutica moderna engloba não somente textos escritos, mas também tudo que há no processo interpretativo. Isso inclui formas verbais e não verbais de comunicação, assim como aspectos que afetam a comunicação. Interpretar significa atribuir o conteúdo, sentido e alcance de um texto normativo, visando à sua aplicação a um caso concreto.

Palavras-chave: Luiza Romão. Arte. Corpo. Mulher.

Do “império da alusão” à exposição da “coisa em si”: o obsceno de Hilda Hilst e do Teatro Oficina

Paulo Henrique Pergher (UFSC)

Resumo: Do “império da alusão”, da ficção oitocentista, à exposição da “coisa em si”, nota, Eliane Robert de Moraes, a transição da erótica na prosa brasileira, o corpo desvelado pelo modernismo, ou seja, da sensualidade elíptica e encoberta ao descobrimento do explícito. Característico da estética praticada por Hilda Hilst e pelo Teatro Oficina, a partir da reabertura democrática e, em especial, da década de 90, o pornográfico, entendido como discurso que visibiliza o obsceno, une-se à elementos grotescos, absurdos, paródicos, ao riso e ao escárnio. A tetralogia obscena de Hilst, composta por O caderno rosa de Lori Lamby, Contos d’escárnio. Textos grotescos, Cartas de um sedutor e Bufólicas e peças do Teatro Oficina, como Pra dar um fim no juízo de Deus, As bacantes e Os sertões, tomam o corpo enquanto materialidade, suas entranhas e escatologias, para transpor os limites de uma estética, ainda em voga no final do século, realista/naturalista. Nessa via, estaria o explícito, como sugere João Adolfo Hansen, restringido de uma possível hermenêutica? A nudez, ao se desfazer da elipse e descobrir o corpo, trataria somente de expor a moralidade e o pudor de determinados tabus de nossa sociedade? Ou estaria o corpo desvelado, também, a aludir?

Palavras-chave: Obsceno. Corpo. Hilda Hilst. Teatro Oficina.

Que corpo ‘negro’ é esse?: o limbo da identidade feminina em Conceição Evaristo e Zora Neale Hurston

Paulo José Valente Barata (UFSC)

Resumo: Stuart Hall (2013), em “Que ‘negro’ é esse na cultura negra?”, postula o que chama de ‘arena profundamente mítica’ da identidade negra, a qual entende o sujeito negro em um espectro essencialista que tende a apagar os atravessamentos dessa(s) identidade(s) como, por exemplo, o corpo da mulher negra. Lélia Gonzales, oportunamente, em A mulher negra (1984) discorre sobre o silenciamento em torno das pautas específicas da mulher negra nos movimentos negros e de mulheres. Entendemos, pois, as categorias ‘raça’ e gênero como eixos centrais em torno dos quais a colonização e a dominação dos povos não-brancos se estruturou no continente americano. A Europa, nesse sentido, edifica as suas nações, relativiza a moral para que outros corpos sejam subjugados e explorados e representa-se como raça superior (cf. Bethencourt, 2018) justificando a violência com que trata os demais povos, impondo uma ideologia colonial, que, entre outros aspectos, é racista e sexista. A colonização, no entanto, não é apenas um processo de violência física, mas sim, simbólica e intelectual, que se mantém para além do período colonial, o que Aníbal Quijano (2005) reconhece como colonialidade do poder, conceito que ajuda a compreender como o colonizado, sujeito/corpo marginalizado se reconhece inferior ao branco colonizador. A partir desse paradigma conceitual, essa comunicação problematiza a identidade e o corpo feminino negro como espaço de memória, de trauma e de lutas nas obras Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo, e Seus olhos viam Deus, de Zora Neale Hurston; a fim de discutir o entre-lugar em que tais identidades se constroem opondo-se ao essencialismo de uma identidade negra que as invisibiliza e ao homem negro que, em um processo de introjeção do espírito colonial, é seu agressor e colonizador de seus corpos. Para tanto, recorremos aos textos de Gonzales (1984), hooks (2017, 2019), Quijano (2015), Hall (2015, 2013), dentre outros.

Palavras-chave: Ponciá Vicêncio. Seus olhos viam Deus. Personagens femininas negras. Entre-lugar da identidade.

Traços e papéis selvagens: o corpo que se contorce animal na obra de Marosa di Giorgio e Paula Rego

Priscilla Oliveira Pinto de Campos (USP)

Resumo: Esta comunicação busca traçar paralelos imagem-texto a partir da obra da escritora uruguaia Marosa di Giorgio (1932 – 2004) e da pintora portuguesa Paula Rego (1935). Por meio de diálogos entre o corpo da mulher e do animal, investiga-se as relações possíveis do livro La liebre de marzo (1981) com algumas pinturas de Rego. Em ambas as obras, verifica-se a presença do corpo da mulher em tensão com o que é tido como fora da ordem social e com representações desviantes, animalescas, monstruosas. Procura-se compreender de que maneira a marca animal – a presença da subjetividade contínua de um corpo selvagem – pode tornar-se um mecanismo temático-discursivo para estabelecer pontos de contato entre a imagem e o texto. Para o aporte teórico, serão utilizados os estudos de Gabriel Giorgi (2016) sobre a animalidade na literatura latino-americana; de W. J. T. Mitchell (1994) para as definições de uma teoria da imagem e suas relações com o texto; e de teóricos como Roberto Esposito (2004) e Cristina Rivera Garza (2011) para pensar, nos textos e nas pinturas, a presença da biopolítica e de como os corpos “monstros” são dispostos na continuidade de um laço social.

Palavras-chave: Corpo. Marosa di Giorgio. Paula Rego. Imagem. Animal.

Corpos invisíveis: fotojornalismo e subjetivação estético-política na partilha do sensível

Rafael Giovani Venuto (UFSC) e Flávia Garcia Guidotti (UFSC)

Resumo: Em “Pode o subalterno falar?”, Spivak (2010) chama a atenção para o fato de que o ato de “dar voz” a quem não tem inexiste a priori, unicamente porque todos já possuem voz própria. O que há é o reconhecimento ou não de tais vozes. Rancière (2005), por sua vez, sugere a existência de dois tipos de partilha do sensível – a política e a policial. Enquanto a primeira demanda a premência de uma cena de sucessivos dissensos no tempo e no espaço, em um movimento de perpétua [re]configuração de possíveis, a segunda se caracteriza pela manutenção de uma determinada ordem (de possíveis) na disposição dos corpos no interior das coletividades. A partir de tal perspectiva teórica, em diálogo também com as noções de “microfísicas do poder” (FOUCAULT, 1987) e “mundo-imagem” (SONTAG, 2004), o presente trabalho reflete sobre as consequências estético-políticas das (in)visibilidades promovidas pelo fotojornalismo e como elas atuam na [re]configuração da partilha (política ou policial) do sensível. São analisadas três imagens produzidas em contextos distintos pelo jornal O Globo, em 2019, e que envolvem pessoas em situação de rua, indígenas e homossexuais. Parte-se do pressuposto segundo o qual não apenas o conteúdo apresentado imageticamente age de modo a [re]criar modos diversos de subjetivação estético-política, senão que sua apreensão sensível não resulta necessariamente em novas disposições dos corpos, por um lado, e tomada de consciência para a mudança, de outro. Ao tomar como parâmetro de análise o regime estético das artes identificado por Rancière (2005), o qual não é sinônimo do que se convencionou denominar “modernidade”, o estudo visa contribuir para discussões em torno do papel social do fotojornalismo, bem como para o amplo debate acerca da [re]criação de outras ficções, subjetividades, dizibilidades e visibilidades nos cenários dissensuais da democracia.

Palavras-chave: Fotojornalismo. Visibilidade. Estética. Política. Corpos sociais.

A voz como extensão do corpo

Rafael Muniz Sens (UFSC)

Resumo: Quando Paul Zumthor defende a potência criadora da voz, ele a coloca enquanto produto de um agente desejoso de expressar o que não pode ser capturado pelas palavras. Nessa perspectiva, precisamos considerar o som-elemento em sua existência própria. Além disso, é necessário entendê-lo como parte de um corpo, sendo que o sujeito que vocaliza somente vive por meio da instância corporal. A voz surge do movimento que criamos junto da respiração, ao utilizarmos diversos mecanismos de nossa caixa torácica, tronco, garganta, cavidades bucais e nasais. Assim, ressignificamos nosso corpo na transmissão oral. Ademais, a filósofa Adriana Cavarero relaciona a singularidade da voz a uma existência encarnada do ser. Logo, já que ultrapassa tanto o filtro linguístico, como o sujeito social, temos que notar sua característica elástica, criadora de um espaço para si. Por intermédio da voz, descolada ou não da palavra, identificamos aspectos subjetivos do outro, desde a performatividade de gênero, diferença regional e etária, assim como o presente no qual ela nasce, ou o passado que a trouxe até ali. Em razão disso, creio que seja essencial considerar a voz nos estudos das humanidades e das artes não como um instrumento, nem como um meio. Em contrapartida, a voz é uma extensão do corpo, esse microcosmo que atravessa toda e qualquer relação que tecemos com o mundo. Ela se constrói nas membranas materiais do emaranhado corpo-voz, antes, durante e depois do ato da fala, canto, grito, grunhido, e etc. Portanto, essa concepção nos auxilia a entender que, mesmo que a técnica, a prática e a intenção possam modificar e mascarar elementos da voz, ainda assim ela constitui uma parte inerente do que somos. O impulso desejante da voz, tal qual o corpo, nos incendeia à existência.

Palavras-chave: Voz. Corpo. Afeto.

Júlio Pomar: uma leitura contemplativa do grotesco no neorreal

Rafael Reginato Moura (UFSC)

Resumo: O neorrealismo, via de regra, nasce de uma crise. Mais do que crise política e econômica: crise de mentalidade, crise de identidade, crise de humanidade, crise de sensibilidade, crise de contemplação. Foi assim na Itália com a ascensão, no cinema neorrealista italiano, das situações puramente ópticas e sonoras, “as imagens-fato” a que se refere Deleuze (2018, p. 11), em detrimento das situações sensório-motoras do antigo realismo e de sua imagem-ação que estaria mais próxima dos desígnios de Mussolini. Foi assim no Brasil com as imagens dos quadros de Portinari e dos livros de Jorge Amado, Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos contrapondo-se à elite escravagista e sua tradicional ganância política e econômica. Não deixou de ser assim também em Portugal, cujo neorrealismo na literatura e nas artes visuais adveio de uma oposição ao conservadorismo e autoritarismo do regime de Salazar e às condições degradantes de trabalho suportadas por classes de camponeses e operários. Em Portugal, a literatura soube ajustar seu foco estético a partir das obras visuais neorrealistas. Júlio Pomar, que produziu algumas das obras mais emblemáticas do neorrealismo português – ou novo humanismo -, muito jovem comemorado por Mário Dionísio, tendo vendido seu primeiro quadro a Almada Negreiros, preso pelo Estado Novo no Forte de Caxias, é o pintor que transvasa a moldura, desenquadra o homem, concilia o desagradável e o sub-humano, deforma corpo e memória em busca de novas formas. E, assim, o artista sublima o grotesco, traço estético que Victor Hugo considerou essencial ao que queira ser moderno.

Palavras-chave: Neorrealismo. Júlio Pomar. Grotesco. Artes visuais.

Perque ritorno da te: feridas (re)abertas no Inferno Provisório de Luiz Ruffato

Raoni Damiano Soares (SESI)

Resumo: Este trabalho visa apresentar um estudo literário, com ênfase nos fenômenos da memória, do romance Mamma, son tanto felice (2005), primeiro volume da série Inferno Provisório, de Luiz Ruffato. Tendo o corpo como principal medium de memória na elaboração das formas de lembrar e de esquecer em sua narrativa, o romance segue à risca a assertiva de Nietzsche de que só o que não cessa de doer fica na memória. Isso se evidencia na análise da narrativa sob a luz da memória-hábito e da memória afetiva que estão intrinsecamente atreladas às experiências de violência física e psíquica das personagens. O hábito é uma memória automatizada sedimentada no corpo e o afeto é um estabilizador da memória corporal que influencia diretamente no trabalho da recordação, seja ela resultado de um esforço consciente ou fruto de uma força involuntária. Nesse sentido, tem-se o corpo como fator de fixação e re(a)presentação do passado. A partir desse dado, busca-se investigar as características textuais da narrativa memorialística de Luiz Ruffato que, como já se tornou recorrente apontar, integra o quadro dos discursos dos excluídos da literatura brasileira contemporânea. Como embasamento teórico deste trabalho, serão considerados os estudos concernentes à memória de Aleida Assmann, Paul Ricoeur, Paul Connerton e Harald Weinrich, a partir dos quais será possível ressaltar o funcionamento da memória enquanto agente estético e político de Mamma, son tanto felice.

Palavras-chave: Memória-hábito. Recordação. Esquecimento. Mamma, son tanto felice.

Dores que conversam: o corpo e a cidade. Ensaio sobre a obra Entre as mãos, de Juliana Leite

Raquel Maysa Keller (UFSC) e Mônica de Souza Alves (UFSC)

Resumo: O ensaio discute o romance Entre as Mãos, de Juliana Leite, publicado em 2018, relacionando as marcas corporais da personagem principal Magdalena às suas memórias e a influência da cidade sobre essas questões. Para isso, a personagem servirá como corpo-sujeito e o lugar em que se desenrola a história, como corpo-espaço, que também é construído num processo cíclico. Refletimos assim, sobre a forma como a cidade, supostamente um território agregador de pessoas e, consequentemente, todos os problemas que advêm desse movimento, exclui seus habitantes comuns, rotula-os, silencia-os, invisibiliza-os e, finalmente, esquece-os. Nesse sentido, os corpos assumem memórias e constroem concepções que passam despercebidas mesmo estando presentes e latentes nas cidades. São as mazelas que fazem parte do cotidiano da personagem que a constitui como um corpo traumatizado. Os mecanismos de exclusão desse corpo, que vai sendo marcado por memórias desde cedo, vão desde suas relações familiares e afetivas de forma geral até relações de trabalho. Se essa marginalização do corpo não acontece no nível pessoal, ela acaba aparecendo no nível da vida em sociedade, na cidade. Através da reflexão sobre os meios que excluem e rejeitam o corpo em nossa sociedade, pensamos ser possível imaginar uma forma de viver esse corpo mais saudavelmente.

Palavras-chave: Corpo. Cidade. Memória. Traumas.

Chicas muertas (2014), de Selva Almada: o romance não-ficcional entre corpos, ossos e arquivos

Renata Farias de Felippe (UFSM)

Resumo: Originalmente publicado em 2014, o romance não-ficcional Chicas muertas, da escritora argentina Selva Almada, é uma narrativa que entrelaça a memória pessoal (da escritora-narradora-personagem) à história recente da Argentina, e que, ao fazê-lo, acaba por expor – e, indiretamente, por relacionar – duas urgências: a necessidade de discutir as arbitrariedades do passado ditatorial e a de visibilizar a violência de gênero. Se a primeira demanda é uma discussão onipresente no país vizinho, o romance de Almada revela que o enfrentamento da violência de gênero e, sobretudo, do feminicídio, são necessidades não menos importantes. O romance também revela surpreendentes ligações entre os crimes, já que tanto as violências movidas por questões políticas quanto de gênero contaram, ou ainda contam, com a conivência das instituições. Os casos reais e ainda irresolvidos de Maria Luisa Quevedo (1983), Andrea Danne (1986) e Sarita Mundín (1988) são os pontos de partida de uma investigação literária que apresenta, primeiramente, à personagem adolescente e, depois, à autora-narradora-personagem adulta, a vulnerabilidade a qual ela e as suas semelhantes estão expostas. Se, como assinala a narradora, ser mulher e continuar viva, tanto na Argentina da década de 80 quanto na dos últimos anos, é “solo una cuestión de suerte”, a condição feminina surge como uma espécie de insígnia, cujo resultado é o apagamento das individualidades tanto quanto da possibilidade de justiça. Diante da problemática, a escrita de Chicas muertas surge como uma tentativa de resistir à invisibilização das singularidades de cada uma das vidas ceifadas, como uma forma de fazer justiça (literária) às mulheres vitimadas.

Palavras-chave: Romance não-ficcional; Literatura argentina. Violência de gênero. Ditadura.

A resistência interseccional nos corpos das personagens de Rafael Campos Rocha

Renata Santos da Silva (UFSC)

Resumo: O cartunista paulista Rafael Campos Rocha criou histórias em quadrinhos que destacam a crítica à sociedade classista, sexista e racista no Brasil. Dentre suas personagens, todos os papéis principais são corpos interseccionais e resistentes aos olhares opressores de um sistema binarista e patriarcal que as rodeiam: Deus, Essa Gostosa é a escolha do Deus cristão num corpo feminino, negro e pansexual, Magda é um corpo simbiótico onde coabitam uma cientista paraibana e um ciborgue alienígena chamado Máquina num Brasil pós-apocalíptico, Demonha é uma professora do ensino fundamental que se rebela contra o projeto Escola sem Partido transformando seu corpo, Sulamita é uma cabra andromórfica ninfomaníaca que mata fascistas com seus amigos Bodes, Kriança Índia é uma criança que não aparenta sexo definido e protege a floresta Amazônica da exploração. Essa comunicação visa apresentar e discutir a importância das histórias em quadrinhos brasileiras na construção de uma identidade nacional e interseccional a exemplo das criações de Rafael Campos Rocha.

Palavras-chave: Interseccionalidade. Histórias em quadrinhos. Rafael Campos Rocha.

O jardim das delícias: desejo e sexualidade em Amrik, de Ana Miranda

Renato Kerly Marques Silva (UFSC)

Resumo: Amrik de Ana Miranda, publicado em 1997, narra a trajetória da personagem Amina Salum. Junto com as memórias de Amina, o texto resgata eventos históricos que motivaram a migração libanesa para as Américas e a formação de uma comunidade de comerciantes libaneses, na cidade de São Paulo, no final do século XIX e início do século XX. A formação dessa comunidade, além de estabelecer laços entre pessoas com uma origem comum, atualizava valores da comunidade de origem, reproduzindo aspectos culturais a partir de uma memória coletiva (HALBWACHS, 1990). A narrativa estabelece importante diálogo com a obra O jardim das carícias, de Rejeb ben Sahli, livro considerado um clássico árabe da literatura erótica, escrito por volta do século XII. A partir desse diálogo, ganha destaque a narração sobre conhecimentos relacionados ao desejo e a práticas sexuais, os quais indicam o papel destas categorias para este grupo social. A descrição de elementos que orientam o desejo, como os movimentos realizados por Amina durante suas apresentações de dança, ou as técnicas mobilizadas na preparação para as práticas sexuais, as quais envolvem um conjunto de conhecimentos sobre saúde, estética e carícias, constituem-se, nos termos de Lauretis (1994), como uma tecnologia do gênero e indicam como se organizam as relações de gênero para este grupo, destacando, sobretudo, quais as ações são permitidas às mulheres.

Palavras-chave: Memória. Tecnologia do gênero. Relações de gênero. Desejo.

Apesar da ousadia, a invisibilidade de escritoras do século XIX: o caso de Carmen Dolores

Risolete Maria Hellmann (IFSC)

Resumo: As razões da exclusão de escritoras da História da Literatura canônica, no Brasil, já vem sendo reiteradamente discutida por pesquisadores(as), sobretudo a partir das discussões acerca da nova historiografia literária e do surgimento da crítica literária feminista nas universidades brasileiras (segunda metade do século XX). Pesquisadoras brasileiras vêm atuando desde os primeiros programas de pós-graduação em literatura (meados do século XX). Contemporaneamente, como o levantamento das autoras/obras já foi exaustivamente realizado – principalmente pelo trabalho arqueológico coordenado por Zahidé Muzart com a antologia Escritoras Brasileiras do Século XIX em três volumes – as pesquisas dentro da linha de resgate da literatura de autoria feminina tendem a uma mudança de rumo, preocupando-se em (des)cobrir seu acervo, para analisá-lo, e, assim, interpretar o processo de inserção dessas mulheres naquele contexto histórico-social-cultural, verificar quais suas condições de produção e recepção, identificar os preconceitos enfrentados, ou seja, avaliar suas formas de acesso e a posição que ocuparam no campo literário de seu momento. Carmen Dolores foi uma brasileira do século XIX, comumente caracterizada, no campo intelectual do seu tempo, como máscula, corajosa e ousada. Autora de obras ficcionais, cronista, conferencista, dramaturga e crítica literária foi politicamente invisibilizada pela história da literatura canônica. O resgate dos escritos literário/jornalísticos da vida e da atuação intelectual e feminista de Carmen Dolores pode proporcionar o reconhecimento e a visibilidade, necessários para a releitura da História da Literatura e construção da historiografia literária de autoria feminina, dessa escritora e jornalista como uma intelectual feminista da Belle Époque brasileira.

Palavras-chave: Carmen Dolores. Historiografia da literatura. Memória. (In)visibilidade. Autoria feminina.

Poesia lésbica: ressignificados e afetos

Thalita da Silva Coelho (UFSC)

Resumo: “[…] não há, para mim, diferença alguma entre escrever um bom poema e me
esfregar, até o amanhecer, contra o corpo da mulher que eu amo”. Sempre fui escritora, ao menos desde que me entendo por gente tenho rabiscado histórias. Poeta, contudo, foi algo que alcancei um pouco mais velha, depois de uma série de entraves, comecei a rabiscar versos quando, talvez não coincidentemente, saí do armário. Esse trabalho é uma reflexão sobre o poder da poesia e do erótico lésbico, inspirado principalmente pelos escritos de Lorde acerca da lesbianidade e da potência transformadora do afeto entre mulheres.

Palavras-chave: Lésbica. Poesia. Poema. audre lorde.