Seminário Memórias do Corpo
  • 2º Seminário Memórias do Corpo: Apagamentos

    Publicado em 07/10/2021 às 18:23

    2020 foi um ano de apagamentos. Apagamentos que em 2021 vivenciamos ainda com maior força e intensidade.  Apagamento de vidas, de corpos nos espaços de convivência, por fim, privação de ritos fúnebres e impedimentos de memorização das vítimas da pandemia de Covid-19 em espaços físicos, como isso ocorreu na praia de Copacabana ou na Praça de Três Poderes em maio de 2020. Vítimas não somente do próprio vírus, mas, também, das omissões, da indiferença, das assimetrias, exclusões, da necropolítica. O corpo morto virou no cenário político e social um ponto de exclamação, uma pós-existência perigosa a ponto de uma suposta necessidade de um duplo apagamento, como discorre Achille Mbembe em sua Necropolítica.

    Ao lado de tantos apagamentos vive-se um aprofundamento do sulco que funda as desigualdades sociais. Enquanto as classes média e alta se retiram como podem do convívio social, os trabalhadores menos favorecidos, invisíveis sociais, são obrigados a sustentar o isolamento de uns poucos. Entregadores de aplicativos de delivery, motoristas de transporte coletivo, operadores de caixa de supermercado, garis, dentre outros, continuaram na linha de frente para garantir a própria sobrevivência e a de outros. O sacrifício desses corpos sofre um apagamento diante da indiferença de muitos, situados atrás da linha vermelha do front.

    Sem contar o aumento da violência contra a mulher nos espaços domésticos, ainda mais silenciada por conta do isolamento social, da necessidade de afastamento. Como denunciar os maus tratos e buscar ajuda se a casa se torna, por força do contexto, um cárcere privado?

    Em tempos de ausência e apagamento do corpo físico e excesso de corpos virtuais, ficam mais evidentes tentativas de mapear o próprio corpo físico e a coexistência com corpos outros no passado: memórias do gesto, do afeto, do sonho adiado, a voz perdurando no mesmo espaço físico, convertem-se em estratégias de sobrevivência e metas para o futuro. É comum, neste tempo pandêmico, que as pessoas digam ‘quando tudo passar’, como se tivessem sido impedidas compulsoriamente de gozar, como se apenas com a queda do muro invisível pudessem sorrir outra vez, fato que revela um certo desajuste entre estar e não poder viver plenamente

    Enquanto alguns experimentam o desajuste da vida em estado desejável porque não circulam livremente seus corpos, outros vivenciam o desajuste de forma extrema, como é o caso das pessoas negras, da comunidade LGBTQI+ e das mulheres. O atual cenário denota crescente discriminação dos grupos não-hegemônicos e de desigualdade entre gêneros dentro da sociedade. O Covid-19 está expondo e reposicionando a vida privada, acentuando a urgência em se pensar na violência doméstica e no feminicídio. O espaço que deveria significar o “pouso seguro” tem se apresentado, em muitos casos, como o lugar da dominação, da dor e da morte para muitas mulheres. O mesmo ocorre com a comunidade LGBTQI+. O maior tempo de convivência em casa com familiares expõe esses sujeitos a diversas vulnerabilidades, à intolerância e ao ódio de parentes. Sob o jugo da opressão familiar, gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais vivem violência físicas e psicológicas por familiares que poderiam acolher e abrigar. No Brasil, o vírus tem apagado, ainda mais, sujeitos não-majoritários a partir de ausência de políticas públicas, desempregos e legitimação de discursos misóginos, homofóbicos e racistas. A população negra, majoritariamente em situação de vulnerabilidade social, está sendo ainda mais penalizada nessa nossa sociedade estruturalmente racista.

    Há um conhecido conto de Jorge Luis Borges, Sobre o rigor na ciência, no qual cartógrafos de um antigo império, versando na arte da cartografia, criam/arquitetam um mapa para o território que coincide exatamente com os limites do próprio território. Sem maior utilidade, o simulacro do império foi abandonado às intempéries como se, de forma premonitória, fosse este também o destino do território original – sofrer um lento apagamento. O real e seu duplo. Nesse arquétipo para a filosofia, a psicanálise e as artes, o original e a cópia não podem conviver ao mesmo tempo. Exige-se um sacrifício para que a ordem simbólica seja restaurada e o dois torne-se novamente uno.

    Um corpo duplicado via simulacro digital, reproduzido em telas, feito não matéria, um corpo que viaja como informação audiovisual pelos cabos de fibra ótica ou de internet metálica, não seria um corpo que também desaparece da memória, como em ruínas abandonadas de um império plenamente cartografado? O que acontece na linguagem dos afetos a partir do isolamento social, do enxugamento do círculo de amizades, do contato mediado apenas por um visor? As memórias ainda coincidem com os limites do corpo ou permanecem, de forma contrafeita, como um tipo de ficção persistente? O corpo original se esgota no processo contínuo de duplicação em imagem? Não seria perigosamente o corpo original que perde utilidade frente à mobilidade do corpo virtual? Como um templo em ruínas, os corpos carnais estariam sofrendo um apagamento?

    Em A troca impossível Jean Baudrillard traz outra bela imagem da duplicação: a partir da catástrofe, a história do sujeito divide-se em duas linhas, de forma definitiva e para sempre. Na primeira trilha de história, o corpo vivo continua sendo o que é e segue adiante; na segunda trilha, o corpo está encerrado nas ferragens do morto que poderia ter sido. Um vivo real e um morto virtual. Duas trilhas, duas histórias para sempre contadas, ora pulsantes ora recalcadas.

    Na aplicação dessa perspectiva aos tempos atuais, o corpo fica igualmente cindido em duas histórias: a vida real e enclausurada, que se movimenta de forma limitada no espaço; a vida virtual e liberada, que se movimenta no tempo. O corpo inveja a liberdade da imagem e se pensa como trilha narrativa de liberdade, ainda que virtual. O corpo virtualiza os desejos – o de contato, de abraço, de afago, de proximidade. Como a memória de um morto virtual, o da catástrofe, o corpo real dos tempos atuais imagina como teria sido a vida se tivesse vivido o ano passado e este. Não é verdade, afinal, que para muitos, o ano de 2020 não aconteceu? Um ano sem acontecimentos? Ou aconteceu muita coisa e, em função do estatismo dos corpos, a impressão é de que nada aconteceu? A impressão é de que tudo era virtual, como um mapa que coincide exatamente com os limites do império, uma simulação? O real apagou-se em função de seu duplo. Se Walter Benjamin dizia que a obra de arte possuía uma aura, definida pelo seu hic et nunc, o corpo segue na mesma analogia: possui uma alma/aura que confere sua singularidade no aqui e agora, algo que se perde com a reprodução técnica das câmeras.

    Corpos isolados e parados na frente de telas enquanto o vírus tornou-se um viajante global (Appadurai) conseguem sentir-se corpo, sentir a sua presença não só no tempo, mas também no espaço? Nesse sentido é possível também perguntar, falando com Wittgenstein, se de fato conhecemos o lugar de dor? E qual a nossa reação diante do dor do outro, pensando nas contribuições de Susan Sontag e Virginia Woolf? Como temos afetado e como estamos sendo afetados nessa nova configuração social? Ainda temos a capacidade de restaurar o espaço da comunidade ou a pulverização dos laços e conviver físico se instaurou em nossas vidas para ficar, ou ainda, ficou mais visível do que já era antes de 2020? Durante a segunda edição do Seminário Memórias do Corpo tentaremos nos aproximar a estas e outras perguntas que envolvem o corpo e os seus apagamentos.

    O seminário que acontecerá entre os dias 29 de novembro e 1 de dezembro de 2021 contará com conferências de abertura e encerramento, cinco mesas temáticas e sessões de comunicações voltadas para tais eixos temáticos como: Memória, corpo e afetos; Memória, corpo e política; Memória, corpo e arquivo; Memória, corpo e estética; Memória, corpo e narrativa.  Certos de que serão três dias de díalogo e trocas convidamos todo público interessado a participar do evento.

    Com melhores cumprimentos,

    Equipe organizadora


  • Caderno de resumos

    Publicado em 15/12/2019 às 22:49

    O caderno de resumos do Seminário Memórias do Corpo já está no ar. Acesse o e-book disponível no repositório institucional da UFSC.


  • Abertas inscrições para ouvintes

    Publicado em 13/10/2019 às 20:27

    Estão abertas inscrições para ouvintes. Acesse o formulário abaixo:
    encurtador.com.br/fiqu9  

     


  • Programação dos Grupos de Trabalho

    Publicado em 13/10/2019 às 20:15

     

    A distribuição das comunicações por Grupo de Trabalho já está disponível para consulta e download.
    Baixem o arquivo aqui: Sessões dos Grupos de Trabalho [atualizado]


  • Listagens de inscrições aceitas

    Publicado em 08/10/2019 às 13:43

    Segue abaixo a listagem das inscrições aceitas para apresentação de comunicação no Seminário Memórias do Corpo.
    Dentro em breve será divulgada a programação com os Grupos de Trabalho das comunicações.

    Seminário Memórias do Corpo – inscrições aprovadas


  • Inscrições prorrogadas

    Publicado em 16/09/2019 às 11:52

     

    A organização do evento decidiu por manter a atividade, mesmo com o possível cenário de greve geral, como forma de articular a resistência, e de integrar o evento como atividade aberta à comunidade.


  • Seminário Memórias do Corpo

    Publicado em 30/07/2019 às 10:03

         

     

    Apresentação

    Quais impressões são grafadas a ferro e fogo no corpo? Quais tatuagens de identidade, de trauma, de memórias inscrevem-se na pele dos sujeitos? De que maneira o corpo pode tomar peso, materialidade, visibilidade nas representações artísticas e literárias ou nos relatos de testemunho? Como lidar com os espaços exteriores e interiores das memórias formadas nos contextos de raça, sexualidade, gênero, deficiência, classe? Como se dá o entrecruzamento entre lugares de fala, biografia, memória e afetos?

    Para a perspectiva pós-moderna, vivemos em um tempo de amnésia imediata, fruto de uma civilização baseada na imagem (Warburg, Baudrillard, Morin, Boehm, Bredekamp, Merleau-Ponty, Lacan, Žižek), na informação, no jornalismo, nas mídias sociais, nas tecnologias. Ao mesmo tempo observamos a omnipresença do corpo como objeto sexual e o apagamento do sensual. As representações de prazer e de dor na mídia trazem uma ilusão de intensidade (Sennett) fazendo das vivências cotidianas inscritas nos corpos materiais aparentemente mais pálidas. A comunicação parece ganhar uma dimensão mais célere, os conteúdos são absorvidos de modo vertiginoso, muitas vezes sendo descartados prontamente. O tempo da experiência, associado ao caráter épico da sabedoria, é transformado e transmutado em vivência (Benjamin). O modo como os sujeitos experienciam o tempo presente também é afetado. Passado, presente e futuro coexistem de forma paradoxal no espaço físico e simbólico fragmentados, é o que os museus de arte contemporânea parecem atestar. Assim, em busca de reavivar o debate sobre a memória e sua importância nas construções identitárias, políticas e afetivas, o Seminário Memórias do Corpo pretende articular e compartilhar saberes e práticas acerca da memória, almejando um diálogo interdisciplinar com diferentes campos de estudo e uma perspectiva interseccional na análise do corpo.

    As questões levantadas pretendem ser o alvo sobre o qual se debruçará este Seminário Memórias do Corpo, atividade organizada pelo Programa de Pós-Graduação em Literatura, com apoio do Núcleo Literatual e NuLIME, e parcerias com o IEG e o LEGH.

     

    Objetivo geral

    Propor debates conceituais sobre memória e corporalidade no âmbito dos estudos acadêmicos.

    Objetivos específicos

    Investigar e debater o tema da memória e do corpo nos eixos temáticos do seminário.

    Incentivar a circulação de saberes acadêmicos e a produtividade bibliográfica de estudantes de pós-graduação e pesquisadores/as.

     

    Eixos temáticos

    Os eixos temáticos orientadores da programação – composta por conferências, mesas-redondas e comunicações orais – são arrolados abaixo (descrever as possibilidades de cada eixo):

    Memória, corpo e afetos:
    incursões teóricas acerca de complexos corporais, dos prazeres do corpo, das afetividades etc.

    Memória, corpo e arquivo:
    incursões teóricas acerca de testemunho, relatos de si, história oral, memórias da ditadura, arquivos literários etc.

    Memória, corpo e estética:
    incursões teóricas acerca dos enquadramentos do corpo nas artes (música, literatura, artes visuais, dança, cinema, teatro, fotografia), da ideia de beleza e feiura, do grotesco e do sublime, carnavalização etc.

    Memória, corpo e política:
    incursões teóricas acerca de corpos excluídos, deficientes, invisibilizados, oprimidos, torturados, limitados, etc.

    Memória, corpo e mídia:
    incursões teóricas acerca do impacto da cultura de massas nas configurações do corpo, do corpo pós-humano, da ilusão social dos reality shows etc.

     

     

    O evento acontecerá nos dias 29, 30 e 31 de outubro de 2019, no Auditório Henrique Fontes, Sala Carlos Drummond de Andrade e Sala Hassis, localizadas no prédio B do CCE, Universidade Federal de Santa Catarina.

    As inscrições para comunicação estarão abertas de 12 de agosto a 30 de setembro de 2019. O resultado dos trabalhos aceitos será divulgado em 4 de outubro no site do evento.

     

    Agradecemos a artista visual polonêsa Beata Ewa Białecka por gentilmente nos ter concedido as imagens que compõem a identidade visual do evento.

    http://www.bialecka.pl/en