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IV Seminário Memórias do Corpo: Comunidades

Ancestrais, imaginadas, digitais ou efêmeras, as comunidades constituem alicerces da experiência humana, moldando identidades, corporalidades, memórias e práticas sociais. A escolha desse tema como estribilho para o IV Seminário Memórias do Corpo justifica-se por sua centralidade nos debates contemporâneos, que vão dos conflitos identitários às inovações tecnológicas, exigindo abordagens transversais entre ciências humanas, artes e estudos culturais, entre outros. Afinal, um exercício de revisão bibliográfica poderia revelar a amplitude e a complexidade do conceito de comunidade, que atravessa tratados filosóficos, narrativas literárias, expressões artísticas e análises políticas, tornando-se um campo privilegiado para pensar os vínculos entre corpo e memória.
A dimensão política das comunidades emerge com força nas formulações de Benedict Anderson (1983), em Comunidades imaginadas, para quem as nações são construídas por meio de narrativas midiáticas e de símbolos partilhados. As identidades políticas partilhadas diferenciam-se entre si pelo modo como cada país consegue fabular-se em feixes narrativos, símbolos, dispositivos, monumentos e, assim, perpetuar-se em uma memória coletiva e cultural relativamente homogênea. Essa imaginação compartilhada, porém, não elimina as assimetrias que estruturam a vida social, pelo contrário, frequentemente constrói uma aparência de fraternidade horizontal. Nesse sentido, Arjun Appadurai (“Aspired communities”, 2024) e Jacques Rancière (‘The fraternal image”, 1977) apresentam um contraponto às versões hegemônicas de uma comunidade imaginada e denunciam as exclusões sociais que estão no cerne daquilo que Rancière chama de “ficção dominante”, problematizando o modo como um sistema de representação nacional cria uma falsa ideia de “camaradagem horizontal” entre os sujeitos, fenômeno que pode explicar o surgimento de mitos como o da democracia racial brasileira.
Ao conceito de comunidade está conectada a noção da subjetividade, pois a representação nacional é um aparato produtor de sentidos, conforme argumenta Stuart Hall em A identidade cultural na pós-modernidade (1992), de modo que o fortalecimento identitário individual depende de como o indivíduo se percebe representado na coletividade. Uma resposta possível aponta para as noções de identidade transversal e histórias vistas debaixo, caminhos que procuram realçar os embates raciais, de minorias étnicas e de gênero presentes na construção de uma imagem coletiva de uma região. É nesse ponto que as reflexões atuais sobre identidade (e comunidade) se tornam decisivas, pois ganha enfoque o fato de que as identidades culturais não são essenciais nem fixas, mas processos históricos e discursivos com muitos atravessamentos. Pensar a comunidade, portanto, implica também interrogar quem nela se reconhece, quem dela é excluído e que imagens de unidade são mobilizadas para sustentar projetos políticos e culturais. Somando-se a tais perspectivas, Ailton Krenak (“A potência do sujeito coletivo”, 2018) aponta para a importância da comunidade como lugar de partilha, convivência, mas também de autodefinição e reflexão sobre o pertencimento, pensamentos esses que se cristalizam na figura do sujeito coletivo banido da sociedade e do espaço definidos pela posse de bens e de terras.
Em outra senda, ao explorar as limitações do sistema sexo-gênero, Judith Butler (Problemas de gênero, 1990) discorre sobre como a performatividade reiterativa na construção dos papeis de gênero constitui um regime normativo de funcionamento das identificações sexuais que, se violada, acaba produzindo formas de ininteligibilidade que autorizam o preconceito. O debate sobre corpos dissidentes ganha outros contornos quando a pensadora questiona quais são os corpos que importam na sociedade (Corpos que importam, 1993) e como é operado o desenho da abjeção que procura sequestrar sentimentos de pertencimento ao todo, tais como ocorrem com sexualidades dissidentes, pessoas com deficiência e grupos minoritários étnicos e raciais. Desenvolvendo ideias que tem como base a noção de biopolítica de Foucault (O nascimento de biopolítica, 1976) tanto Butler quanto Achille Mbembe apontam para modos de exclusão física e simbólica de sujeitos e grupos sociais. Essa concepção ecoa na noção de Necropolítica (2011) proposta por Achille Mbembe, obra na qual o autor analisa os mecanismos de pertencimento e exclusão por meio de dispositivos como fronteiras, políticas migratórias, sistemas de vigilância, encarceramento e até extermínio em massa.
Na produção intelectual e artística uma das preocupações do momento é a autoria. Em debates sobre a pós-modernidade já se discutia a ideia de um esgotamento da criatividade, resultante de uma perda do gênio criativo fantasiado pelo Romantismo, como em Fredric Jameson (Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio, 1996), e responsável por conferir ao gesto artístico uma qualidade de operador de pastiches ou de mixador de discursos anteriores. Hoje, sob o impacto das inteligências artificiais generativas, o problema está em pensar uma era da escrita pós-humana, marcada por certo hibridismo entre pensamento humano e maquínico na construção dos discursos. Nesse contexto, torna-se necessário perguntar como coletivos pensantes e criativos preservam suas singularidades, de que modo citações, intertextualidades e reescrituras podem ser compreendidas como práticas partilhadas e até que ponto os trabalhos acadêmicos, artísticos e tradutórios se redefinem diante das novas tecnologias de produção textual.
Durante o IV Seminário Memórias do Corpo queremos — em uma comunidade pensante – examinar as formas, riscos e ganhos da vida em comunidades, concentrados sobretudo nos seguintes eixos temáticos:
- comunidades intelectuais
- comunidades artísticas
- comunidades imaginárias
- comunidades étnico-raciais
- comunidades queer e dissidências de gênero