Conferência de encerramento

Conferência A multidão imprópria: comunidade e dissidência queer

Fábio Feltrin
Universidade Federal do Paraná – CNPq

A conferência examina uma tensão constitutiva da tradição ocidental da comunidade, frequentemente vinculada a formas de coesão que dependem da produção de um exterior ameaçador, de um resíduo a ser expulso e de vidas cuja exposição à violência assegura a integridade imaginária do corpo comum. Nesse horizonte, o debate contemporâneo sobre comunidade fornece uma via crítica importante para desfazer a identificação entre comunidade, substância partilhada e interioridade protegida. As formulações de Jean-Luc Nancy, Maurice Blanchot e Giorgio Agamben permitem recolocar o problema do estar-junto para além da unidade orgânica, enquanto Roberto Esposito evidencia, por meio do paradigma da imunidade, como as comunidades modernas se organizam através de dispositivos de defesa, filtragem e exclusão que distribuem de maneira desigual o pertencimento e a vulnerabilidade. A partir desse quadro, a conferência busca deslocar a reflexão em direção à crítica queer, compreendida como campo teórico e político capaz de desarmar a gramática sacrificial que sustenta as ficções normativas do comum. A noção de multidão queer, mobilizada por Sam Bourcier e Paul B. Preciado, funciona aqui como contra-dispositivo capaz nomear uma forma de coexistência que não se apoia na semelhança, na pureza ou na homogeneidade e se aproxima mais do que Donna Haraway propôs com sua política dos parentescos. Essa postura permite pensar composições contingentes entre corpos, afetos e dissidências sem submetê-las à exigência de uma unidade superior. O problema central consiste em indagar que forma de comum se torna pensável quando a normalidade deixa de funcionar como princípio organizador do laço social e quando a interioridade coesa perde seu privilégio político. A hipótese desenvolvida sustenta que a multidão queer não abandona o problema da comunidade, mas o reinscreve em outro terreno, no qual o vínculo se define pela impropriedade, pela heterogeneidade e pela recusa de toda economia política fundada no sacrifício.

Sobre o palestrante: Professor associado do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná, desde 2023. Bolsista produtividade do CNPQ. Foi professor associado do curso de História da Universidade Federal da Fronteira Sul (2011-2023). Possui graduação em História pela Universidade do Estado de Santa Catarina (2003), mestrado (2005) e doutorado (2011) em História Cultural pela Universidade Federal de Santa Catarina. Desenvolveu pesquisa de pós-doutorado na Universidade Estadual de Campinas (2016) e na Universidade Nova de Lisboa (2019). Atuou como pesquisador visitante no Hispanic Languages Literature Centre, na Stony Brook University – Nova York (2017). Tem experiência na área de História, com ênfase em História da América Independente e Teoria da História. Atua nos seguintes temas: arte, nação, modernidades, biopolítica/necropolítica, trauma, produção de sujeito e discurso. A atual pesquisa problematiza as relações entre História e Trauma a partir dos modos de inscrição do genocídio indígena na Argentina. É coordenador dos quatro volumes da coleção ”Educação para as relações étnico-raciais” (2016), autor dos livros ”Dispositivo nacional: biopolítica e (anti)modernidade nos discursos fundacionais da Argentina” (2021), ”Mariano Moreno e seus exílios” (2023) e ”Ficar com os fantasmas: historia e trauma na obra de Cristina Piffer (2026). Atualmente ocupa o cargo de coordenador do curso de História – Bacharelado ou Licenciatura.

Data: 03 de junho | Horário: 16h30 | Local: Auditório Henrique Fontes (Bloco B/ CCE)